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Como o auto-isolamento redefine o sentido de conforto

Por “conforto” você pode entender aqueles pequenos atos de generosidade que praticamos com a gente mesmo, independente de quão ruim pareça nossa situação atual.

Nesses momentos, recomendo não usar essa frase nos seus diálogos consigo (nem com as outras pessoas): “fica melhor”. Por quê? Porque é angustiante! É como se você dissesse: “Há uma luz no fim do túnel” – sem levar em conta como “o túnel” ainda tá em processo de escavação. “Fica melhor” transforma esperança em decreto: trabalhe duro e, no final de um dia doloroso, você (magicamente) aproveitará o sol. 

Não é assim que funciona.

Então, em vez disso, ofereço: “Viva um dia de cada vez”. 

Meu amigo Sam me aconselhou isso enquanto eu sofria após um rompimento. Essa se tornou uma frase de atalho para: pare de cavar e seja gentil consigo mesmo. 

Ser gentil na época significava dormir 12 horas por dia. A partir das 19h às 7 da manhã. Quando fiquei um pouco mais forte, tirei de vista tudo o que me lembrasse do passado, reorganizei meu apartamento apenas o suficiente e depois passei todo o tempo possível fora de casa. Eu me demorava no trabalho, nos filmes, nos compromissos de beleza, nos restaurantes, na terapia e nos cafés. Se eu não estivesse em casa, não conseguiria conjurar fantasmas. 

E então a pandemia chegou. 

conforto

 

Como o auto-isolamento redefine o que traz conforto 

No início de março, até pra garantir a saúde da minha avó, comecei a me preparar pro auto-isolamento. Quando a região onde eu moro anunciou que nós deveríamos ficar em casa, alguns dias depois, me senti estranhamente livre de pânico. “Agora só preciso esperar”, pensei. 

Na primeira semana, minha ansiedade se descontrolou. Parecia que parte do meu túnel (pra fazer referência à metáfora no começo desse texto) havia desabado. Eu não tinha certeza se deveria continuar cavando pra frente ou voltar pra limpar a bagunça.

Na segunda semana, o sono desapareceu a um ponto em que tomei um comprimido para dormir por desespero. Acordei no dia seguinte com enxaqueca. 

  

O conforto é um mecanismo de enfrentamento

Nenhum dos meus truques de autocuidado funcionou; não apenas porque eles não estavam disponíveis para mim, mas também porque, quando há risco de vida pra conseguir itens não-essenciais, algumas práticas caem por terra. Ir a um restaurante fazer uma refeição indulgente, por exemplo, era algo que me acalmava na correria do dia a dia. Mas na pandemia, isso era impossível. Mesmo pedir comida desses mesmos restaurantes não funcionou!

Aquilo que eu tinha definido como meus hábitos de autocuidado não me acalmavam mais. Em vez disso, elas pareciam trabalhosas. Meu cérebro tava lutando pra me manter calma mesmo nas atividades mais banais – como respirar! 

Participar do capitalismo tardio se parece muito mais com um escapismo do que com um mecanismo de enfrentamento quando você lê sobre as duras realidades de pessoas forçadas a escolher entre saúde ou salário. (Dito isto, se um item realmente ajuda a sua saúde, como utensílios de cozinha, livros ou um purificador de ar, meu terapeuta disse para obtê-lo.) 

Mas então meu rosto explodiu com urticária, algo que aconteceu com todo o meu corpo em 2017 devido ao estresse (eu tinha testado negativo para todas as alergias). Percebi que meu mantra nesse momento era “tudo vai ficar melhor”, e aí era que tava o problema. 

Eu tava “cavando” de novo, muito rápido e usando todas as minhas forças. Tava tentando “me paparicar”.  

Mas não é isso que é conforto durante uma pandemia. 

O conforto é um mecanismo de enfrentamento, e o espectro varia da distração ao alívio. Não se destina a prometer um final feliz ou necessariamente salvar o seu dia. É o que você faz para passar de um momento pro outro.

Ou, como meu terapeuta me lembra, a gentileza que estendo a mim mesma fazendo ou pedindo o que eu preciso. 

Então não há dias bons ou ruins. Apenas bons ou maus momentos que compõem um dia.

 

O conforto começa com a auto-compaixão 

Uma vez que aceitei a pandemia, tudo o que tive que fazer foi procurar práticas que me ajudassem a curar e reconstruir. Também reajustei minhas expectativas de conforto. Das coisas que eu queria e das que eu precisava. 

Aceitei chorar espontaneamente como um presente. 

Em vez de “cavar” e correr, passei um tempo vendo restinhos da minha pele esfoliada flutuarem pelo ralo. Limpei uma mesa velha, cheia de coisas e lixo, pra trabalhar com mais conforto.

Fiz chamadas coletivas pra combater a solidão.

Eu maratonei uma série e, depois de três horas, reconheci quando ela tava começando a me entorpecer, em vez de me distrair ou aliviar. Então parei e deixei pra continuar outro dia. 

Peguei fotos antigas pra me lembrar que passei por muitos passados. Eu me senti viva pela primeira vez durante o auto-isolamento ouvindo “Cherry Wine” de Hozier com o som da chuva editado em segundo plano, porque, como Jia Tolentino escreveu sobre essas edições de outras músicas: “ouvir outra versão de uma música que você ama é uma experiência tranquilizadora e isolada: você se sente solitário e cuidado ao mesmo tempo.” 

Aceitei chorar espontaneamente como um presente.   

Recalibrar sua definição de conforto é o melhor conselho que tenho para esse túnel pelo qual todos estamos passando.

Você pode fazer isso comendo alimentos nutritivos ou fazendo um detox digital.

Você pode cuidar das plantas da sua casa ou finalmente participar de uma aula de fitness online que faz você se sentir bem com seu corpo.  

Há muitas coisas fora de nosso controle no momento, mas se nos lembrarmos que o poder de acalmar vem primeiro de dentro, então encontraremos conforto em momentos de incerteza.

 

Outro dia, na ponta dos pés, fui mexer na prateleira mais alta da minha estante, e terminei derrubando cartas rascunhadas pelo meu ex. Como olhar pra elas ainda me deixara triste, eu as coloquei de volta na prateleira.

Há três meses, mexendo na prateleira mais uma vez, cruzei de novo com as artes. Aí já tinha passado tempo suficiente desde o término do meu relacionamento. Agora as cartas me acalmam com a lembrança de que, por um belo período, alguém se importava comigo.

*Texto traduzido e adaptado de Greatist

  Desinchá sabores

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