Como construir hábitos mesmo sem ter força de vontade

Como construir hábitos mesmo sem ter força de vontade

Você já deve ter ouvido que, ao apelar para a força de vontade, ela vai se desgastando e “se cansa” ao longo do dia. Então se colocarem uma fatia do nosso bolo preferido na nossa frente, a gente vai ter MAIS CHANCES de comer uma, duas, vaaaárias fatias se tivermos nos privado de outras formas naquela data específica.

Maaassss… Se mesmo no fim de um dia super difícil, alguém colocar na nossa frente um prato cheio de uma comida que nós não gostamos, a gente não vai sentir o menor desejo de comer, certo?

Pode ser até que seja algo nutritivo só que, nesse cenário, você balançaria a cabeça e diria: “não, obrigado.”

A diferença aqui é a história que contamos a nós mesmos.

Você pode justificar a sua escolha com mil e um motivos. E o que é um motivo, aliás? Uma história!

O poder das nossas histórias

Talvez você conheça o famoso “experimento do marshmallow” da Universidade de Stanford.

Eles pegaram várias crianças, colocaram um marshmallow na frente delas, e prometeram que elas poderiam comer não um, mas DOIS doces se conseguissem resistir à tentação até o pesquisador voltar.

Experimento do marshmallow

Acompanhando o desenvolvimento dessas crianças, aquelas que resistiram se saíram melhor tanto na escola quanto na vida.

Mas algo interessante sobre esse estudo (e que raramente é mencionado) é: quais as ESTRATÉGIAS das crianças para se controlar e não comer o marshmallow? Elas não trincaram os dentes e exibiram uma força de vontade sobrenatural. Ao invés disso, usaram a reavaliação cognitiva - olharam aquela situação com outras lentes (imaginando, por exemplo que o marshmallow na verdade era uma nuvem) ou fizeram disso tudo um jogo.

Resumindo: contaram a si mesmas outra história.

Quando contamos uma nova história a nós mesmos, podemos subverter todo o paradigma da força de vontade.

Mas de onde vêm as histórias?

A teoria modular da mente, aceita hoje pelos principais campos da psicologia, diz que você não tem um “eu único” na sua cabeça, mas sim vários “eus” que se revezam no comando do seu corpo.

Divertida Mente

O filme DivertidaMente, da Pixar, foi baseado nessa teoria.

Então talvez “você-que-está-lendo-esse-texto” conte a si mesmo uma história diferente, mas ainda vai ter que convencer os outros “eus” a embarcarem nela com “você”.

Basicamente, a “pessoa” que traça planos para o futuro NÃO é a mesma que “vive a experiência do presente”.

Vários desencontros sobre como você acha que deveria agir e como age de fato, no fim, são discussões entre partes diferentes da sua mente. Partes que têm seus próprios desejos, medos e impulsos - cada uma defendendo um ponto de vista.

Parece papo de louco, mas você pode pensar na sua mente como uma grande família disfuncional.

No núcleo dessa família, existe uma criança com necessidades bem especiais. E dois pais que sempre aparecem quando a criança experimenta algum tipo de conflito (e começa a chorar!).

O primeiro pai é super repressor. É o responsável por aquela voz: “Você é um merda! Não acredito que está comendo esse bolo quando falou que não ia comer! Não dá para levar a sério nada do que você diz! Não tem palavra!” (Parece que ele fala sempre com exclamações)

O segundo é bem indulgente. Ele vai dizer coisas como: “Você teve um dia tão difícil, meu bem. Você MERECE esse pedaço de bolo. O importante é que você se sinta bem agora, nesse momento.” (E quase dá para sentí-lo passar a mão sobre a sua cabeça)

Passando a mão na cabeça

Então em muitos momentos, a gente precisa acalmar esses pais, achar o “eu” mais negligenciado da família (seu “eu do futuro”) e colocá-lo para conversar com a criança.

O “eu do futuro” é aquele irmão mais velho que sempre sofre as consequências do nosso mau comportamento.

Ele é quem precisa trabalhar até tarde, porque o “eu do presente” ficou assistindo Netflix. E é ele quem está morrendo de sono, porque o “eu do presente” comeu bolo até passar mal (e teve uma oscilação bem louca de insulina na corrente sanguínea).

Arrested Development

Na série Arrested Development, o personagem principal (Michael) precisa dar jeito na sua própria família disfuncional

E tudo o que o nosso “eu do futuro” quer é que a gente seja mais maduro emocionalmente.

Entrando em cena… Nossas emoções!

Quando a gente se debruça sobre um mau hábito, pensamos que temos que nos agarrar à força de vontade.

De um lado, aquele pai indulgente diz: “Faça. Você merece.”

E do outro, o pai repressor diz: “Resista! Você é um ser humano ou um rato?!”

Não é difícil prever quem a gente costuma ouvir, né?

A resistência e a força de vontade perdem a maior parte das vezes. Só que ouvir esse pai repressor não é bom para a nossa saúde no longo prazo. Isso está associado a resultados, sim, mas também ao envelhecimento precoce e desenvolvimento de doenças.

O “eu do futuro” sabe o que quer, mas nós não somos robôs para seguir suas instruções indiferente às nossas emoções… A culpa TEM QUE SER das emoções, certo?

Não.

O segredo está em colocar OUTRAS EMOÇÕES no comando.

Emoções que estão alinhadas com o pensamento de longo prazo, que não te deixem se sentindo esgotado, e que facilitem você alcançar seus objetivos. Elas ainda podem te deixar mais feliz e melhorar seus relacionamentos.

No livro Emotional Success, o professor de psicologia David DeSteno explica quais são elas. :-)


#1 - Gratidão

Essa palavra está “na moda”, né? E é incrível como ela pode fazer a gente se esforçar pelos outros de um jeito que, se não nos sentíssemos gratos, não faríamos. O “pulo do gato” aqui é aplicar esse mesmo raciocínio para o seu “eu do futuro”.

É como se disséssemos: “Obrigado por ter resolvido os meus problemas. Deixa que agora é a minha vez de facilitar a SUA vida.”

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A diligência inspirada pela gratidão leva a melhores hábitos alimentares, melhor desempenho no trabalho, menos tabaco ou bebidas alcoólicas, sem falar que aumenta a qualidade dos relacionamentos e o senso geral de bem estar.

E o melhor de tudo: com uma percepção de esforço muito menor.

Ter que se apoiar na força de vontade é estressante. Enquanto ela puxa as nossas rédeas, a gratidão coloca uma cenoura à nossa frente para guiar o caminho. A gratidão torna a recompensa de fazer a coisa certa mais tentadora.

E isso tem o poder de nos colocar numa espiral positiva. Ao invés de se desgastar com o uso, quanto mais você sente, mais recompensadora a gratidão se torna. <3

#2 - Compaixão

Tem começado por aí um movimento que valoriza a autocompaixão acima da autoestima. Isso para combater o estereótipo de quem a gente pode ser “bonzinho com os outros” e “violento consigo mesmo”.

Esse é um comportamento condescendente, porque, para ter a autoestima elevada, é preciso se achar acima da média. Isso quer dizer que podemos agir feito abusadores com a nossa “criança” (lembra da família disfuncional da mente?) quando falhamos.

Já a autocompaixão, por nos ajudar a lidar com o fracasso de uma forma mais generosa, pode inclusive levar a resultados mais interessantes.

Em Emotional Success, o autor apresenta uma pesquisa onde estudantes que foram auto compassivos depois de se dar mal numa prova, estudaram 30% a mais e, no geral, se saíram melhor academicamente.

Numa conversa com o seu “eu do futuro”, a autocompaixão provavelmente falaria algo assim: “Tudo bem, falhamos. (E aí ela te daria um abraço) Mas eu prometo que vou fazer o meu melhor para lidarmos com isso, ok? Agora vou te contar como podemos passar por esse momento difícil.”

#3 - Orgulho

Não estamos falando aqui daquele orgulho que vem acompanhado de arrogância ou desdém.

Orgulho é o sentimento de satisfação quando fazemos algo notável, superamos nossos limites, agimos de acordo com os nossos próprios ideais.

É o orgulho da criança mostrando um desenho: “olha o que eu fiz!”

Gaten Matarazzo.gif

Se você colocar aquele bolo na minha frente agora, focar no orgulho que eu vou sentir ao não comer é mais efetivo do que pensar na culpa de comer.

Mesmo se eu eventualmente comer do bolo, focar no orgulho vai me ajudar a não exagerar. <3

Então uma dica é prestar atenção em tudo o que você fizer que pode impulsionar o sentimento de orgulho. Você pode até criar uma coleção de pequenas conquistas!

E pode ainda focar no orgulho futuro que vai sentir em determinadas situações.

A força de vontade age como um contrapeso para negar os nossos impulsos. Mas existem outras estratégias.

Seu “eu do futuro” agradece.