Crônicas de uma infância inapropriada

Ando assistindo alguns documentários muito interessantes (e assustadores) sobre a maneira como nos alimentamos, principalmente nos últimos, sei lá, 50 anos. Cada um deles aumenta a minha certeza de que sempre nos esconderam informações demais visando apenas o lucro, pouco se lixando para questões de saúde.  

Crônicas de uma infância inapropriada

Após tantos anos renegando os malefícios de dietas deficientes e altamente calóricas, hoje vemos os resultados: uma epidemia de diabetes, inclusive em crianças (coisas que, 40 anos atrás, praticamente não existia), uma parcela gigantesca da população morrendo de tipos de câncer que surgem da má alimentação e mais uma outra parcela gigantesca morrendo de problemas cardíacos.  

Isso me fez pensar: será que já estou perdido? Como me alimentei nos últimos 20 anos? Como foi minha educação alimentar quando eu era só uma criança? Bom, a última pergunta me deixou um pouco desesperado, mas percebi que esse recorte se aplica para quase toda a minha geração.  

Eu, filho único criado pelos avós nos anos 90, posso dar um relato emocionante sobre como fui alimentado na infância: com o que eu quisesse, basicamente.  

Se eu quisesse tomar refrigerante no café da manhã, era só pedir. Se não quisesse legumes, tudo bem. Meu prato favorito? Se eu pedisse todos os dias, eu comeria todos os dias. Até colocar ketchup no feijão era tranquilo. Afinal, pelo menos eu estava comendo algo nutritivo.  

Obviamente meus avós criaram um monstrinho que não gostava de comer nada que não fosse suas comidas favoritas (e eram poucas, tipo massa com molho de tomate e hambúrguer). Meus pais, quando me viam, também não se importavam muito. Quando eu ia em casa de amigos e eles bebiam suco ao invés de refrigerante, eu achava uma aberração. Nem conseguia comer direito. E olha que esses meus amigos não viviam exatamente com uma alimentação “saudável”, apenas tomavam suco e, assim, os pais ficavam com a consciência tranquila. 

Ron Weasley comendo

Beber refrigerante, comer açúcar a vontade, gordura sem parar e ingerir ultraprocessados sem culpa não me transformou em uma pessoa obesa e cheia de doenças. Fui extremamente magro quando criança, inclusive. Mas meu metabolismo sempre foi muito privilegiado.  

A questão é: meus pais e, principalmente, meus avós, não eram monstros que não davam a mínima para a saúde do seu filho/neto. Mas o que será que isso me causou? Bom, eu e meus amigos continuamos vivendo bem, fazendo esportes e roncando pouco. Mas o problema não está aí. Dizem (não sei se é verdade) que mudando sua alimentação você consegue reverter facilmente a intoxicação do seu organismo por tanto tempo comendo coisas ruins. 

Chris Farley comendo

Eu penso que a maneira como nos relacionamos com a comida é o espelho de como nos relacionamos com o mundo. A minha geração pode ter perdido alguns anos de vida pela má alimentação, mas o fato de terem (falo da indústria) nos privado de tantas informações importantes junto com o “permissivismo” das nossas famílias afetou, principalmente, a nossa visão de mundo. Com o tempo que demoramos para aprender que tudo que fizemos com relação a alimentação estava “errado”, poderíamos ter percorrido um caminho muito diferente com o lugar em que vivemos. 

Imagine o quanto estaríamos a frente, hoje, na parte da saúde: teríamos muito menos doenças, menos remédios, menos custos. Poderíamos focar em outras prioridades. Mudaríamos as condições climáticas para melhor, afinal, não existiria tanta demanda por alimentos industrializados. Teríamos mais energia para estudar, trabalhar, até para ficar de bobeira no bar. Dormiríamos melhor.  

Hoje, depois que conseguimos “popularizar” a acesso a informações antes restritas, vemos uma infinidade de pessoas tentando melhorar seus hábitos alimentares. Inclusive pais que só alimentam seus bebês com coisas naturais, sem açúcar, sem nada. Pessoas que cresceram na mesma época que eu e se alimentavam como eu.  

A intenção aqui não é te ensinar a comer melhor, meu jovem. Isso já fazemos bastante por aqui. O intuito aqui é fazer você pensar por qual motivo você come o que come. E o que isso diz sobre você.  

Afinal, comer também é um ato político. E esse ato diz que tipo de vida queremos levar e qual mundo queremos. Então fica o recado final: conheça o seu alimento, querido leitor.  

Assinatura Desinchá

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