Eu testei: 7 dias sem comer besteira

Segunda-feira, o dia que todo procrastinador teme. Dia de iniciar coisas, e uma das principais chama-se: dieta. Eu não sou o tipo de pessoa para se espelhar quando o assunto é alimentação saudável. Dia desses tive um faniquito quando tentei entrar em um vestido “novo” e me deparei com aquela situação constrangedora quando usamos roupa de botão e a última casinha insiste em não fechar. Neste dia, a boa e velha balança pesou na minha mente e, ao desabafar com uma amiga, fui desafiada a mudar minha rotina durante 7 dias: parar de comer tanta besteira e adotar uma alimentação low crap. Gostei da ideia? Óbvio que não, mas como eu não fujo de um desafio nominal… Então vamos lá:

Eu testei: 7 dias de alimentação saudável

Dia 1: O início 

Estou convalescendo de uma gripe ingrata, logo, acordei atrasada. Pra não sair de jejum, fritei 2 ovos sem óleo mesmo e segui viagem. Almocei um senhor prato de salada, tentando me lembrar de colocar o máximo de coisas verdes que eu conseguisse lembrar (coloquei até um kiwi), uma posta de salmão e um bifinho acompanhado de um suco de laranja que me deu uma dor de estômago tenebrosa.  
 
Tive reunião externa, assisti uma palestra sobre Introdução à Vida Saudável que ministramos para um parceiro (foi bem enriquecedor pra esse novo momento da minha vida), só que isso tudo demorou mais que o previsto e a fome começou a bater. Fiquei presa no trânsito na volta para o escritório, enquanto minha mente carboidrática pensava no Virado à Paulista que eu neguei no almoço (porque queria começar essa experiência com um dia mais low carb). Comi uma mexerica pra espantar esse pensamento.  
 
Acabei saindo tarde, então tudo que eu consegui jantar pra não dormir com fome foi uma sobrecoxa de frango feita na Airfryer e um copo d’água pra não beber refrigerante. 

 

Dia 2: Café da Manhã 

Acordei com muita fome feat atrasada devido ao dopping da gripe e saí de jejum pensando em inúmeras possibilidades de comida de rua saudável que eu poderia encontrar no caminho – um total de zero. Minha primeira opção era o carrinho de tapioca em frente à estação, mas curiosamente não tinha nenhum vendedor quando cheguei lá. 
 
Em meio à baldeação, meu estômago me lembrava do boteco que serve pão na chapa bem ao lado do meu trabalho, mas subindo a escada rolante do metrô eis que vejo reluzente o trailer de Pão de Queijo e este foi meu café da manhã em meio aos roncos ensurdecedores da minha barriga. 
 
No almoço, lembrei que não comi carboidrato no dia anterior e me permiti incluir uma porção de feijão no meu mar de salada com manga e morangos juntamente com um copão de suco de morango, já que a experiência da laranja não foi agradável. Meus companheiros queriam sobremesa. Deixei-os no caminho e fui correndo pro escritório tomar um chá.  
 
Essa primeira parte do meu dia foi tão sofrida que passei a outra metade pensando numa desculpa pra pular fora do desafio de seguir uma alimentação saudável. Culpar a gripe seria perfeito, mas algo me dizia que era uma mentira já que eu me sentia bem melhor e sem fome por um período maior que o de costume. Resolvi colocar como meta apenas sobreviver àquele dia. No fim, lembrei que precisava comer e lanchei uma pipoca de Lemon Pepper da Mais Pura.  
 
Foi um dia cheio. Jantei feijão com filé de frango e acabei cedendo aí uma colher de sopa de sorvete de maracujá antes de dormir (achei que fruta podia). 

 

Dia 3: Abstinência 

Hoje acordei plena por motivos de pré-feriado. Cometi a besteira de sair sem café novamente, mas por um milagre eu não estava com fome e acabei postergando o jejum até demais. Pra não almoçar demais, resolvi comer uma tapioca de frango quase 11h da manhã (me convenci que realmente não gosto de tapioca). Aí a hora do almoço bateu e eu não tinha fome (a tapioca era enorme) então fui levando a vida laboral.  
 
Mais tarde, me deu vontade de comer doce e meu humor foi se alterando. Tudo me irritava, até cheiro de perfume, a voz das pessoas… Todo mundo estava fazendo questão de dizer o quão chata eu estava.  
 
Me esforcei em resistir às propostas indecentes dos meus colegas a respeito de coisas açucaradas e cheias de farinha de trigo para apaziguar meu mau humor. Comecei a chorar, pensando se isso era o que as pessoas chamavam de abstinência e meus colegas começaram a se desesperar. Olhei pro relógio e eram quase 16h, resolvi sair pra caçar algo mastigável e lembrei das empanadas que tem aqui perto (e algumas têm massa de quinoa). Comi duas.  
 
Meu estagiário, comovido com meu trágico estado emocional, me obrigou a dividir um crocante de cacau com chantilly. Meu humor foi restaurado, e minha mente perversa me lembrou de como era bom comer um doce, logo, os chocolates que eu tinha escondido na minha mesa começaram a pular diante de mim me fazendo pensar no quanto eu precisava deles.  
 
Comi um kiwi amarelo e espantei esse pensamento. Tive que ir na faculdade e fui obrigada a esperar minha orientadora finalizar sua refeição em frente à cantina. Estufas e mais estufas de puro carboidrato e frituras dançavam diante de mim, mas eu não estava com fome. E sim, eu resisti.  
 
Cheguei em casa e jantei três filés de frango com um punhado de carne moída. Deitei minha cabeça no travesseiro pensando como eu iria sobreviver ao feriado prolongado sem nenhuma opção de alimentação saudável em casa. Pensei seriamente em procrastinar o desafio e atender o desejo do meu coração de comer a comida que eu amo e ser feliz, até que caiu uma notificação no meu celular: “sua menstruação está próxima”. Não era abstinência, era hormônio.  

 

Dia 4: O Feriado 

Com a graça de Deus acordei quase meio dia e pulei direto pro almoço: peixe, frango e carne moída com molho de um macarrão que eu evitei. Fiz nada o dia inteiro, lanchei um pão de queijo pelo simples fato de que minha mãe queria me obrigar a comer bisnaguinha.  
 
À noite fui dar um rolê que, de forma inédita, não envolvia comida. Cheguei em casa e repeti o almoço na janta, feliz por sobreviver a mais um dia. Pela primeira vez não pensei em desistir. 

 

Dia 5: Home Office 

Sextou. E a cólica me acordou cedo, mas curiosamente não estava me incomodando tanto quanto o de costume. Graças a ela, tive tempo suficiente de montar meu café da manhã antes de iniciar meu home office. Finalmente consegui fazer uma omelete decente!  
 
Almocei no horário – já que minha mãe me obrigou a desocupar a mesa -, comi filé de frango e, pasmem, purê de abóbora (tive certeza que não comeria novamente). Comi uma mexerica de sobremesa já que só tinha suco de couve (aí é demais).  
 
Não lanchei por motivos de a-)me perdi nos e-mails, e b) não senti fome, algo MUITO RARO nos meus home offices. 
 
Na janta substituí a abóbora pelo feijão e ficou tudo bem. 

 

Dia 6: Drácula Untold 

Sabadou e foi mais fácil do que eu pensava. Acordei cedo e comi pão de queijo no café da manhã tentando ignorar a variedade de pães e bolos que minha mãe orgulhosamente expôs à mesa.  
 
Almocei a lindeza de uma costelinha suína, carne de panela com feijão e abobrinha (sim, odiei). Tudo corria perfeitamente bem, até que o cheiro de leite condensado borbulhante atraiu meus sentidos olfativos. Enquanto uma senhora panela de arroz doce se insinuava na minha frente, fui descascando uma manga como nunca antes havia feito e amarrei essa miragem com um prato cheio dessa fruta maravilhosa. Mais um dia de ócio se estendia, e enquanto o Drácula tentava resistir ao desejo de rasgar o pescoço de sua esposa eu resistia a vontade infame de correr pra panela do arroz doce. Me senti totalmente empática com o maior Vampiro de todos os tempos toda vez que o cheiro de hemoglobina líquida dilacerava seu pulmão.  
 
Assisti Brasil e Peru pela Copa América tomando um chá e jantei costelinha com linguiça (nem sei se podia, mas estava de saco cheio kkk) e dormi feliz por resistir ao arroz doce sem muito sofrimento. 

 

Dia 7: O último dia do desafio de adotar uma alimentação saudável

Domingo. Dia de macarronada com frango na casa de boa parte da população terrestre (e na minha não foi diferente). Decidi me pesar, já que ainda não tinha comido nada e minha best balança mostrou 1,5 kg a menos que a última vez. Fiquei tão sem ação que nem tomei café da manhã.  
 
Almocei espaguete de abobrinha ao alho e óleo (dei mais uma chance né) com carne moída e uns pedaços de sobrecoxa de frango. Até que ficou bom.  
 
A vontade do doce era tanta que de repente lembrei que esqueci de sofrer pelo crush de tanto que eu me concentrei em não comer o arroz doce. Em meio a prorrogação de Brasil e França pela Copa Feminina, lembrei de uma pipoca de Cacau Original da Mais Pura esquecida na mochila. Foi meu oásis no deserto. Tomei chá duas vezes pra acompanhar minha santa pipoca.  
 
Terminei meu domingo, sétimo e último dia do desafio de seguir uma alimentação saudável, repetindo meu almoço na janta (teve bis de espaguete de abobrinha siiiim) – feliz por perceber que sobrevivi. 

Por fim… 

Meus maiores desafios foram na mente. Distinguir a fome real da “vontade de comer”, fazer trocas inteligentes sem me sabotar e sem me proibir. Não levar o desafio de seguir uma alimentação saudável como “dieta” ou como “coisas que eu não posso comer” e, sim, alcançar pequenas vitórias por dia ao resistir a vontade de comer alimentos que eu tinha plena consciência que não fazem bem para mim. Não posso dizer que foi ruim, foi positivo!  
 
Conforme os dias foram passando, era nítida a mudança na minha pele, no corpo e até mesmo a disposição. Subir as escadas da estação estava bem mais fácil, o óleo excessivo da pele diminuiu e consequentemente as acnes quase que diárias também.  
 
Se fosse começar agora, com certeza teria planejado melhor minha semana. Faria uma seleção de possíveis cardápios para não passar nenhum dia sem tomar café da manhã e nem sofrer pela falta de doce – principalmente no feriado prolongado onde eu teria tempo de testar várias receitinhas.  
 
O melhor de tudo foi perceber que não era sobre uma dieta para emagrecer, e sim um desafio para testar meus limites – principalmente da mente – e sobretudo uma proposta amorosa sobre mudança de hábitos silenciosamente suicidas para hábitos saudáveis.  
 
O que levo desse “Eu testei…” é a certeza de que não importa a meta que eu venha traçar na vida, ou o tamanho do desafio que alguém venha me propor, se eu tiver foco e determinação eu consigo qualquer coisa.  
 
Sou plenamente capaz de alcançar o que eu quiser, se eu simplesmente me dedicar a fazê-lo. Ninguém vai fazer por mim, e não estou falando de “dieta”: estou falando de superação. 

Assinatura Desinchá

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Ery

Ótimo artigo!