Precisamos falar sobre transição de gênero

Você já se perguntou como acontece o processo de transição de gênero e como o corpo reage a essa mudança? Praticamente ninguém fala sobre isso, e o assunto pode gerar várias dúvidas. Bom! Hoje nós vamos falar sobre isso (ufa!)

Mas antes de qualquer coisa, precisamos entender a diferença entre sexo, gênero e orientação sexual.

São classificações diferentes, com determinantes diferentes e que precisam ser entendidas assim, pois elas formam seres humanos diferentes, com suas particularidades e complexidades.

Diferença entre sexo, identidade de gênero e orientação sexual

SEXO 

O sexo talvez seja a característica ‘menos complexa’ das citadas. Ele é definido pela combinação dos nossos cromossomos com a nossa genitália. Dessa combinação, nascem o que chamamos de macho, fêmea ou intersexual.  

O intersexual biologicamente não se encaixa na classificação binária de “macho” e “fêmea”. A biologia nos ensina que o macho é XY e a fêmea XX, mas isso não acontece em todos os casos. Há uma minoria da população que nasce com uma divergência entre o sexo genético e as gônadas (glândulas sexuais) e/ou genitais, os intersexuais.  

Existem mais de 40 possíveis causas para esses casos e a cada dia aparecem mais, por isso não vamos falar de uma por uma, mas é importante falar que o termo “hermafrodita” NÃO DEVE SER USADO. Esse é um termo grego, ultrapassado, que coloca todos os intersexuais numa mesma bolha, quando, na real, existem várias possibilidades para a intersexualidade se manifestar. 
 

GÊNERO 

O Gênero vai além do que as classificações binárias das ciências biológicas definem como sexo. Os gêneros estão mais associados à cultura e à sociedade, e construídos conforme o ser se desenvolve nesses cenários. Portanto, mais relacionados às ciências sociais.  

Judith Butler, maior pensadora do assunto, nos ensina que os gêneros são complexos e variados, mas que não temos consciência disso porque fomos habituados a uma estrutura social patriarcal, baseada nas divisões de “homem” e “mulher”, que sempre rejeitou o diferente e a multiplicidade dos outros gêneros sociais.  

Fomos moldados (desde que nascemos) a crer que “homem é homem” e “mulher é mulher”, e a defender que existem “coisas de homem” e “coisas de mulher”, mas hoje facilmente vemos que somos muito mais plurais que isso e devemos assumir nossas identidades.  

Para falar de identidade é preciso falar de identidade de gênero. As identidades de gêneros abrangem todas as particularidades e complexidades das relações e identidades humanas, vai além do tradicional “homem” e “mulher”. É meio subjetivo, eu sei, mas é na subjetividade que está o segredo para entender a pluralidade. A pluralidade se traduz nas relações, no sentimento, da pessoa com ela mesma, ou com outra pessoa, no amor. O amor independe do sexo e é claro que ele pode ser binário, entre homem e mulher, mas da mesma forma pode se desenvolver em relações não-binárias, explorando outros gêneros. 

Existem pessoas com mais de um gênero, como os transgêneros, transexuais e travestis. Elas possuem uma identidade de gênero diferente do que elas foram ensinadas a ter. Cresceram como mulheres, mas se identificam como homens; ou cresceram como homens e se identificam como mulheres. Afinal, o que é mais importante: a certidão de nascimento, que é um pedaço de papel praticamente imposto, ou como a pessoa se vê?  

É claro que existem as pessoas que se identificam com o gênero que está na certidão de nascimento delas: essas recebem o nome de cisgêneros.  

 

ORIENTAÇÃO SEXUAL 

Isso mesmo: orientação e não opção, porque como falamos, o amor é subjetivo – ninguém escolhe quem quer amar.  

A orientação trata das práticas sexuais e afetivas do ser humano. Ela também é pré-determinada pela sociedade, pois a heterossexualidade sempre esteve nas lideranças, oprimindo qualquer outro tipo de relacionamento. Mas não é assim que funciona.  

Por mais que as relações de poder sejam dominadas por uma elite heterossexual que impõe uma heteronormatividade (normas sociais históricas que impuseram uma série de padrões) que atinge relacionamentos, comportamentos e levam a maior parte da sociedade a acreditar que só o heterossexual é normal. Existem e sempre existiram outras formas de amar e de se comportar. São tantas que, a cada dia, se descobrem novas e algumas nem possuem nome, ou ainda nem entraram na sigla do movimento LGBTQIA+… Mas merecem direitos e respeito! 

 

Algumas orientações sexuais: 

Homossexuais – Atração afetiva e sexual por pessoas do mesmo gênero e sexo. Lésbicas são mulheres que gostam de mulheres, gays são homens que gostam de homens.  

Bissexuais – Atração afetiva e sexual por qualquer pessoa do binarismo “homem” e “mulher”. 

Heterossexuais – Atração afetiva e sexual por pessoa do gênero/ sexo oposto  

Assexuais – Pessoas que não sentem atração por nenhum outro gênero. Pode ser uma “sexualidade” em construção.  

Pansexuais – Pessoas que tem para si que gênero e sexo não são fatores determinantes para se atrair afetivamente e sexualmente por outra pessoa. 

Vale destacar que os gêneros e as orientações sexuais são independentes, nada impede que uma mulher trans se relacione com uma mulher (não necessariamente trans), ou que um homem trans se relacione com outro homem (não necessariamente trans) ou com outra mulher. Ou seja: um transexual pode se identificar como homossexual, heterossexual, bissexual, pan…  

Agora que as diferenças estão bem claras aqui, você já sabe que os transgêneros são pessoas que possuem um gênero que não se identifica com o seu sexo e com o gênero que lhes foi imposto desde o nascimento. E que isso é completamente normal e não uma doença ou qualquer outra besteira que as pessoas falam por aí. Agora, vamos entender o que é a transição de gênero e como acontece esse processo.
 

Precisamos falar sobre transição de gênero

A TRANSEXUALIDADE NÃO É DOENÇA  

Em 25 de maio desse ano, a OMS removeu a transexualidade da classificação de transtornos mentais. Antes chamada de “transtorno de identidade de gênero”, agora a transexualidade é enquadrada na área de sexualidades como “incongruência de gênero”. A agência de saúde da ONU concluiu que a transexualidade não é um problema de saúde mental, e pretende impactar a impressão errada que as pessoas tem da transexualidade e também da diversidade de gênero permitindo, assim, que essas pessoas tenham mais facilidade de acesso a saúde.  

Vou explicar em um parágrafo do que se trata a transexualidade: quando uma pessoa nasceu e foi criada para ser algo com o qual ela não se identifica, como uma pessoa do sexo feminino que na certidão de nascimento consta como “menina”, mas ele sempre soube que era “menino” (ou vice-versa). Em uma determinada época, ele decide se assumir conforme sempre se viu, e aí inicia a chamada “transição de gênero”. 

A transição de gênero pode acontecer de algumas formas e em várias áreas da vida da pessoa. Neste artigo pretendemos trazer algumas delas para te ajudar, caso você não se sinta confortável no corpo que você está. Resumidamente, tentaremos trazer o que acontece com o corpo em cada transição, até porque o processo é bem longo.  

Antes de entrar na transição, caso você não se sinta confortável consigo mesmx, procure um terapeuta. Existem, inclusive, os que são especializados em gênero. Caso encontre algum e não se identifique, procure outro e tenha sempre em mente: você não está doente, muito menos sozinhx!  

A TRANSIÇÃO SOCIAL 

A transição social trata de como você se relaciona com a sociedade e de como você gostaria que ela te tratasse. Existem algumas possibilidades para transição social, elas são normalmente a mudança de nome, das vestimentas e cabelos.  

O nome você tem todo direito de escolher o que desejar e pedir para que as pessoas se refiram a você usando-o. Vale lembrar que você pode ter um nome de batismo e um nome social, ou pode alterar a sua assinatura (o seu nome para valer). Novamente: é um direito seu, não fique com medo de corrigir as pessoas quando usarem “o” para se referir a você e não “a” e vice-versa.  

Outro aspecto da transição social pode ser a mudança no visual, como as alterações nas roupas e cabelos. É claro que tudo depende de como você se sente e deseja.  

 

A TRANSIÇÃO HORMONAL 

A transição hormonal tem que ser feita com o acompanhamento de um endocrinologista e, para os menores de idade, é importante o acompanhamento e a autorização dos pais ou responsáveis. Ela visa diminuir ou inibir a produção hormonal do sexo que a pessoa não se identifica e estimular, por meio da ingestão dos hormônios, o aparecimento das características do gênero para o qual a pessoa quer fazer a transição. É aqui que a transição física começa realmente.  

O tratamento hormonal é realizado durante um bom tempo e marca o aparecimento das características sexuais secundárias do sexo escolhido. Ele permite, por exemplo, o crescimento das mamas, redistribuição de gorduras e diminuição no crescimento de pelos; ou a potencialização do desenvolvimento muscular, maior distribuição e crescimento dos pelos e a interrupção da menstruação.  

 

AS INTERVENÇÕES CIRÚRGICAS 

O momento mais “invasivo” da transição são as cirurgias.  

No caso da transição mulher-homem, pode-se retirar o útero, os ovários e as mamas. Também é possível a realização da chamada metoidioplastia, realizando o alongamento do clitóris, além de uma reconstrução do órgão como um pequeno pênis. A cirurgia garante a ereção e a possibilidade de urinar em pé. Também é possível construir a bolsa escrotal, como um testículo aparente. O processo, inclusive, pode ser realizado no SUS.  

No caso da transição homem-mulher, é realizada a remoção dos testículos e a construção, a partir da pele do pênis e um pedaço da mucosa do intestino, de uma neovagina. O procedimento também está disponível no SUS!  

O processo de transição de gênero não é simples, e também não é rápido. Ele exige o envolvimento de uma série de especialistas de saúde física e mental, além de paciência.

No vídeo abaixo, você pode descobrir mais detalhes sobre isso:   

 

Assinatura Desinchá

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