Quando eu descobri a gordofobia

Durante toda a minha infância eu me sentia mega confortável com o meu corpo – ainda que fosse zoado por ser a criança mais gorda da turma (felizmente hoje chamamos isso de bullying).  
 
E sim, GORDA: esse adjetivo tão negativado pelo mundo vai ser muito usado nesse texto (porque ser gordo é normal, afinal.) Enfim… Nunca liguei para os bullies, porque não via meu peso nem minha aparência como algo ruim. Acho que eu era uma criança sensata. Ufa! Ou talvez só fosse inocente demais.  

Como nem tudo na vida é sensatez, eu cresci e cheguei ao Fundamental 2 (pelo menos era como chamavam) e ao Ensino Médio. E como a gente está cansado de ver nessas comédias românticas e filmes teens, esse período pode ser cruel. E foi… #sad  

Me deixei abater com os comentários maldosos dos meus colegas. Comecei a sentir vergonha de mim mesmo e a me sentir obrigado a perder peso. 
 
Talvez você chame isso de loucura, paranoia, maluquice, insanidade, desequilíbrio. Mas o nome disso, na real, é PRESSÃO ESTÉTICA.  

Bom, cresci mais um pouco e comecei a ler mais sobre um assunto. Um dia fiz questão de comparecer a um debate universitário que me fez desassociar algumas coisas importantes que eu já conhecia, achava que entendia, mas não era bem assim. Passei a enxergá-las com outros olhos.  

Eu costumava ver pressão estética e gordofobia como sendo a mesma coisa, e me incluía nisso sem considerar agravantes importantes, como a questão do gênero (porque as mulheres sofrem com isso tudo de uma forma muito mais devastadora que nós homens, mas o patriarcado é assunto para outro texto!)  
 

Pressão estética é algo que todos os corpos, principalmente os corpos femininos, estão expostos constantemente. A sociedade, por algum motivo bizarro, criou um estereótipo do corpo perfeito – que é inalcançável, mas ainda assim somos pressionados a buscá-lo e acabamos nos deixando influenciar por essa noção do corpo perfeito, nos preocupando excessivamente com o nosso exterior. 

A gordofobia trata mais da pressão que vem quando ter um corpo “fora dos padrões” resulta em perda de direitos. Por isso, você pode questionar, “mas eu sou muuuito magro(a), sofro tanto quanto”. Calma galera. Você pode sofrer, sim, com a pressão estética, porque a maior parte do mundo está debaixo desse guarda-chuva, mas não a ponto de perder direitos básicos, como uma pessoa que sofre gordofobia.  
 
Eu suuuper achava que tinha sofrido gordofobia, e que o mundo ia continuar me oprimindo enquanto eu persistisse com o meu corpo (mais ou menos de 1,75M e 100kg). Coitado. No fim, eu nunca estive nem perto de sofrer com a gordofobia real oficial.  
 
Eu nunca deixei de ir ao cinema por ele não possuir cadeiras confortáveis a mim. Nunca deixei de ir à escola pelo mesmo motivo.  Nunca confundi meu medo de voar (de avião) com a angústia de não caber nas poltronas. Nunca tive pessoas me olhando feio no transporte público.  Nunca me senti constrangido por não conseguir passar na catraca do busão.   
 
Isso sim é GORDOFOBIA. Quando alguém perde DIREITOS básicos pelo seu peso. E nós precisamos falar sobre isso (acho que tenho usado essa expressão com uma certa frequência aqui no blog. Ufa!) 

Quando eu descobri a gordofobia

Gordo não é doente 

Esse é o maior dos pré-conceitos sobre os corpos gordos. A maioria das pessoas, ao ver uma pessoa gorda, já associa que ela, por algum motivo, não seja saudável, se entupa de fritura e seja sedentária. Mas quem disse que isso é verdade?  

Você pode me dizer “a OMS” (Organização Mundial de Saúde, para quem não sabe). E realmente, ela classifica a obesidade como uma doença através de uma conta de divisão do peso pela altura ao quadrado. Se o resultado dessa conta for acima de 30, a pessoa é considerada obesa, doente. 

O problema é que muitos outros fatores básicos deveriam ser incluídos nessa conta para que uma pessoa seja considerada doente.  
 
Hormônios, boa alimentação, taxas de colesterol e triglicerídeos, atividade física e bem-estar psicológico não seriam relevantes na hora de dar esse diagnóstico?  

E por que não são considerados? Porque vivemos em uma sociedade que cultua o corpo magro e rejeita o corpo gordo – uma sociedade gordofóbica.  

Uma sociedade em que os próprios profissionais da saúde ajudam a propagar um ideal de corpo inalcançável sob o guarda-chuva da falta de saúde.   

Por conta desses estereótipos, vemos inúmeras dietas terríveis para a saúde, mortes e sequelas em mesas de cirurgia plástica, quadros de depressão, ansiedade, compulsão e transtornos de imagem ou/e distúrbios alimentares.   

 

Magreza não é saúde 

Ainda sobre a OMS: para eles, uma pessoa saudável só precisa ter o IMC entre 18,5 e 24,9. Isso também não leva em consideração, assim como comentamos acima, uma alimentação correta, prática de exercícios físicos e outros fatores importantes.  

A mídia, com um empurrãozinho da indústria da moda, ainda ajudou a massificar a noção de que magreza está diretamente associada à saúde e bem-estar, o que, da mesma forma que um corpo gordo NÃO é sinal de doença, um corpo magro não necessariamente é sinal de saúde.  

Essa falsa noção também pode gerar inúmeros problemas de saúde, como desnutrição e quadros mais graves de bulimia, anorexia, uso d e laxantes e remédios tarja preta… Falamos mais sobre isso neste post.

 

Gordo não é piada 

Acho um absurdo ter que colocar isso em negrito em um texto em pleno século XXI, mas é importante destacar que os corpos gordos são normais e que ninguém tem nada com isso.  

Acho o humor muito válido e uma importante ferramenta de entretenimento, às vezes até mais que isso. Contudo, quando ele é usado pra diminuir o outro, temos um probleminha.  

É evidente que um humor livre de opressão é muito melhor e ao mesmo tempo muito mais difícil de ser criado, e que nem todo mundo tem essa expertise. Dito isso, é importante que nos questionemos: tenho tirado boas gargalhadas das pessoas a troco do constrangimento de outras? 

 

Hoje, recém-chegado à maioridade, tenho um total de zero problemas com o meu peso e com as minhas gordurinhas. Sou vegetariano, minha alimentação é baseada em mato, e faço exames de rotina (cujos resultados vão muito bem, obrigado!) 

O nosso processo de aceitação não é uma tarefa simples, nem fácil e muito menos rápida. Eu tenho sorte de ter abraçado o que eu vejo no espelho tão cedo, mas é claro que tive alguns facilitadores.  
 
Caso você ainda se sinta constrangido com o seu corpo, não permita que esse texto te pressione. Todos temos o nosso tempo, somos diferentes, múltiplos e isso é lindo! Se você quiser mudar algo no seu corpo, também, fique à vontade. Pluralidade é TÃO chave.  
 
Ainda acredito que a gente vai construir uma sociedade inclusiva que não rejeite nenhum corpo. Estamos aqui para ocupar espaços. 

Assinatura Desinchá

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