A vingança do glúten: como o trigo domesticou o humano

Com uns bons anos de atraso depois dele ter virado bestseller mundial, estou lendo Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, livro do historiador israelense Yuval Noah Harari. Para uma nerd como eu, esse livro gera vários momentos que me dão vontade de cutucar a pessoa mais próxima e gritar “miga, você não vai acreditaaaar!” Um desses momentos é quando ele fala sobre a Revolução Agrícola e brinca que o trigo domesticou o ser humano. Hmmm, então nossas #fortesemoções desencadeadas pelo glúten hoje são tipo, a nossa vingança? 🤔

Tá, vamos por partes. Nossa vida como caçadores-coletores era bem mais deboísta no sentido de que trabalhávamos menos e ficávamos menos vulneráveis se acontecessem secas, enchentes ou quaisquer questões climáticas. Nesse caso, era só juntar nossos pouquíssimos pertences e ir para outro canto.

Então várias sociedades ao redor do globo começaram a manipular o solo. Esse processo não mudou de um ano para o outro, claro. Como tudo na história, cada geração avançou um tantinho nessa direção até que num certo momento fazer a transição para a agricultura foi mais um passo do que um salto. Com isso, construímos nossas casas próximas ao campo de cultivo, criamos armazéns para guardar a produção e, com o excedente de comida, pudemos nos organizar em grupos maiores que os de caçadores e coletores.

A vingança do glúten: como o trigo domesticou o humano

Até aí tudo bem. Só que nossa qualidade de vida piorou. Tivemos que trabalhar bem mais para arar o solo, aguar as plantas, arrancar ervas daninhas roubando recursos da nossa ó-tão-preciosa plantação. Secas e enchentes que destruíssem esse trabalho traziam consigo fome e morte.

Nossa alimentação também piorou. Nossa biologia se desenvolveu enquanto caçávamos e coletávamos e, por isso, tínhamos uma alimentação bastante variada. Com o cultivo, passamos a comer muito mais trigo, feijão, batatas… Sempre a mesma coisa, com pouca variedade. E isso trazia um impacto à nossa saúde, nos deixando à mercê de doenças.

Só que ainda conseguíamos alimentar mais pessoas, mesmo que mal. Do ponto de vista da evolução, isso é o que importa. O sucesso de uma espécie é determinado pela reprodução. As vacas que usamos na indústria, por exemplo, são, evolutivamente, uma das espécies mais prósperas do planeta – mas com um estilo de vida miserável. Melhor seria ter a vida de um rinoceronte – um dos últimos de sua espécie – correndo pelas savanas africanas.

Ou não?

Mas uma espécie se deu muito bem nisso tudo: o trigo. Antes uma gramínea quase insignificante, ele prosperou e ocupou o mundo. Os seres humanos começaram a TRABALHAR pelo seu bem-estar!

– Ahhh, o trigo precisa de água.
– OH NÃO! Essas gramas estão roubando os recursos da terra que deveriam ir para o trigo…
– O trigo precisa de adubo!

E assim íamos nutrindo todas as necessidades do trigo.

Até hoje, para a maioria de nós, seguimos as mesmas tendências da alimentação dos antigos agricultores enquanto nossa biologia AINDA é a de caçadores-coletores.

Mas isso tem mudado. O glúten (a proteína do trigo) começou a ser demonizado, e parece que de uma hora para a outra todo mundo virou celíaco e/ou intolerante à lactose.

Dietas como a paleolítica e outras estratégias low carb têm ganhado cada vez mais espaço – principalmente por quem quer perder gordura corporal ou quem sofre com algumas condições médicas (como diabetes e doenças autoimunes). Essas dietas seguem uma tendência: bye bye, glúten, ultraprocessados e açúcar.

Cresce por aí uma tendência de se alimentar com uma vasta gama de CORES para o prato. Isso traz mais diversidade nutricional e, hey! Nossa biologia agradece.

E você, é do tipo que não suporta ver uma farinha branca ou não dispensa um pãozinho? A gente segue o papo nos comentários.

Assinatura Desinchá

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